Malacara: a marca de calçados que nasceu na crise e vende direto ao consumidor
Podcast · Episódio 002

Malacara: a marca de calçados que nasceu na crise e vende direto ao consumidor

Francis, da Malacara, conta como a marca nasceu em plena crise de 2008, por que o e-commerce foi o primeiro canal e como vender direto ao consumidor virou a maior vantagem competitiva.

Episódio do Performance para Resultados com Francis, da Malacara.

A Malacara é um caso raro: uma fábrica de calçado que já nasceu vendendo direto ao consumidor final, num momento em que o setor inteiro fechava as portas. Francis, um dos sócios, conta como a marca surgiu em plena crise de 2008, por que o e-commerce foi a primeira ferramenta de venda e como essa estrutura, quase por acaso, virou a maior vantagem competitiva da empresa.

Nasceu na crise, não apesar dela

A família fazia modelagem de calçado terceirizada para grandes marcas. Em 2008, com muitas fábricas migrando para a China, o serviço secou. Foi aí, e não num plano estratégico, que nasceu a marca própria: o pai fazia botas de gaúcho para amigos, e a sugestão foi produzir um lote pequeno e vender em eventos.

A gente romantiza a frase "toda crise traz oportunidade", mas é difícil enxergar isso no meio do sufoco. A Malacara é a prova concreta: a marca só existe porque o modelo antigo quebrou e obrigou a decisão.

O primeiro produto errou o público, e isso foi ótimo

Os primeiros pares eram botas masculinas. No primeiro evento, quem comprou foram as mulheres, atraídas pelo conforto. Em vez de insistir no plano, eles ouviram: criaram uma linha feminina de montaria, com ergonomia e detalhes diferentes. Hoje cerca de 80% do público é feminino.

"Às vezes a gente pensa demais em qual produto lançar. Olhando para trás, o importante foi ter dado o start, mesmo que não fosse pelo caminho mais fácil."

A leitura de quem está comprando vale mais que a intenção de quem está vendendo. Foi o consumidor, não o business plan, que definiu o rumo da marca.

Cresceu com o pé no chão e devendo

A empresa começou devendo o equivalente a cerca de 50 mil reais de uma máquina, num setor em queda. A saída foi permuta: compravam couro das fábricas onde ainda prestavam serviço e abatiam do próprio salário. Por três anos, tudo que vendiam era reinvestido antes de tirarem dinheiro para si.

O conselho que o Francis dá é o mais simples e o mais violado do empreendedorismo: gastar menos do que se ganha. Vai demorar mais, mas fecha a conta. Muita empresa com produto bom quebra na desorganização financeira, não na falta de venda.

O e-commerce foi o primeiro canal, não o último

Como vendiam em feiras para gente de longe, precisavam de um jeito de vender de novo para aquela pessoa depois. O e-commerce virou a primeira ferramenta de venda, lá por volta de 2010 a 2012, quando calçado online ainda era visto como impossível, porque bota tem numeração, cano, perna. O primeiro pedido caiu três dias depois de o site entrar no ar.

Essa objeção de "meu produto é técnico demais para vender online" eu escuto até hoje. A resposta é a mesma: se dá para vender geladeira pela internet, dá para vender calçado. O que muda é o quanto você reduz o risco do cliente com foto, informação e prova. É o que trabalho em taxa de conversão de e-commerce.

Vender direto virou a maior vantagem

Sendo indústria e vendendo direto ao consumidor final, a Malacara tem um ciclo de feedback que as grandes marcas não têm. A marca tradicional cria o produto, larga representante na rua, vende para o lojista, e só um ano depois descobre se acertou, com o desenvolvedor já na coleção seguinte.

"O feedback que a gente tem é imediato. Se um produto não funciona, a gente sabe na semana, não no ano que vem."

Isso muda tudo: valida produto com dinheiro real, corrige rápido e não paga margem para cada intermediário no caminho. É a mesma conta que aparece quando uma marca decide entrar em marketplace sem destruir a própria operação, que eu detalho em marketplace sem canibalizar a loja própria.

A sua operação está pronta para vender direto ao consumidor?

Em uma hora de diagnóstico gratuito comigo, a gente olha os seus canais, a sua margem e onde está o gargalo real do crescimento.

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Cinco canais e zero estoque no online

Hoje a marca opera em feiras do agronegócio com caminhões que viram loja, lojas físicas em Gramado, no Vale dos Vinhedos e na fábrica, e o e-commerce. E no online eles trabalham com zero estoque: o par é produzido sob encomenda, do jeito que o sapateiro antigo fazia. Menos desperdício de matéria-prima, de tempo e de transporte.

É um modelo que só é possível porque a indústria está dentro de casa. Mostra que verticalização, quando bem usada, não é custo, é o que permite trabalhar sob demanda e proteger margem. O resultado disso aparece no case da Malacara, com os números que a operação alcançou.

Os perrengues que ninguém posta

Francis conta os bastidores que a glamourização do empreendedorismo esconde: dormir junto com os animais num evento porque a estrutura não chegou, guardar comida do almoço para o jantar porque não sabia se teria bufê de novo. A gana veio dessas dificuldades, exatamente para não passar por elas de novo.

O que eu levaria desse episódio para a sua operação

Ouça quem compra, não o seu plano. A Malacara virou uma marca feminina porque escutou o primeiro evento. Seu produto pode estar sendo comprado por um público que você nem mirou.

Trate o e-commerce como canal de recompra, não só de venda. Ele nasceu ali para reencontrar o cliente da feira. Base própria vale mais que venda avulsa.

Se você é indústria, a venda direta é a sua vantagem, não uma ameaça ao lojista. O feedback rápido e a margem preservada compensam o trabalho a mais da operação.

Cristiano Creczyenski, CEO da Metris
Sobre o autor

Cristiano Creczyenski

Cristiano Creczyenski é CEO da Metris e apresenta o podcast Performance para Resultados. São mais de 17 anos de experiência em e-commerce e marketing digital, com atuação em marcas como Lojas Colombo, Fila, Umbro, Melissa, Coza, Continental Ferramentas, Vinhos Collection e Pizzato.

Perguntas frequentes

Perguntas frequentes

Quem é a Malacara?
É uma marca brasileira de calçados e artigos de couro, fundada em 2008 na Serra Gaúcha por uma família de modelistas de calçado. Combina fábrica própria, lojas físicas, feiras do agronegócio e e-commerce, vendendo direto ao consumidor final.
Por que a Malacara nasceu na crise de 2008?
Porque a família prestava serviço de modelagem para fábricas de calçado, e com a migração de muitas delas para a China o serviço secou. A marca própria surgiu como saída, a partir das botas de gaúcho que o pai já fazia para amigos.
Dá para vender calçado pela internet?
Dá, e a Malacara prova isso desde 2010. A objeção de que calçado é técnico demais por causa de numeração e caimento se resolve reduzindo o risco do cliente com boas fotos, informação e prova. O primeiro pedido do site caiu três dias depois de ele entrar no ar.
Qual a vantagem de a indústria vender direto ao consumidor?
O feedback imediato. A marca tradicional só descobre se acertou o produto cerca de um ano depois, quando ele chega ao consumidor pelo lojista. Vendendo direto, a Malacara valida produto com dinheiro real na mesma semana, corrige rápido e não paga margem a intermediários.
Como funciona o e-commerce com zero estoque da Malacara?
O par é produzido sob encomenda, como o sapateiro antigo fazia. Isso só é possível porque a indústria está dentro de casa e reduz desperdício de matéria-prima, tempo e transporte, protegendo a margem.
Qual o conselho financeiro para quem está começando?
Gastar menos do que se ganha. A Malacara começou devendo e reinvestiu tudo por três anos antes de os sócios tirarem dinheiro para si. É simples e é o mais violado: muita empresa com produto bom quebra na desorganização financeira, não na falta de venda.
Onde assistir ao podcast Performance para Resultados?
No canal do podcast no YouTube e no Spotify. É o podcast da Metris, apresentado por Cristiano Creczyenski, com conversas sobre operação real de negócios que vendem pela internet.
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