ROAS Alto Pode Ser um Problema: a Conta que Explica
Margem e lucro · Guia

ROAS alto pode ser um problema

Ninguém comemora um indicador errado com tanta convicção quanto um e-commerce comemora ROAS alto. Na maior parte das vezes, ROAS muito acima da média não é eficiência: é sinal de que você está investindo pouco, vendendo pouco e deixando o custo fixo comer a operação.

Essa é a conversa que eu nunca vi acontecer em curso de tráfego, e que eu tive que aprender em gestão: o ROAS é um indicador de mídia sendo usado como indicador de negócio. Quando você entende o que ele esconde, a decisão de quanto investir muda completamente.

Resumo executivo (TL;DR)

ROAS muito alto quase sempre significa investimento baixo. Investimento baixo significa venda baixa, e venda baixa significa custo fixo mal diluído. O resultado é uma operação com indicador de mídia excelente e lucro líquido ruim — porque o custo fixo não cai quando você vende menos.

  • Aumentar a verba costuma derrubar o ROAS e subir o lucro, porque o custo fixo se reparte em mais pedidos.
  • Markup não é margem. O multiplicador do varejo ignora impostos, frete, taxas e o rateio da estrutura.

Por que o custo fixo muda tudo

Custo fixo é o que você paga vendendo zero: equipe, aluguel, plataforma, ferramentas, contabilidade. Ele não acompanha a venda — e é exatamente por isso que o volume importa.

Com números redondos, para a mecânica ficar clara. Suponha uma estrutura de R$ 8 mil por mês:

Venda no mêsCusto fixoPeso do fixo sobre a venda
R$ 10.000R$ 8.00080%
R$ 50.000R$ 8.00016%
R$ 100.000R$ 8.0008%

A mesma estrutura, o mesmo time, o mesmo aluguel. O que muda é quanto de cada real vendido sobra depois de pagá-la. É por isso que a operação que fatura pouco pode ter ROAS de 8 e não sobrar nada, enquanto a que fatura dez vezes mais opera com ROAS 4 e é lucrativa.

Há um limite honesto nisso: vender mais deixa de ajudar no momento em que você precisa aumentar a estrutura — contratar, mudar de sede, trocar de galpão. Aí o custo fixo dá um salto e a conta recomeça em outro patamar.

Por que o ROAS alto trai

Perseguir ROAS alto é perseguir a parte mais barata da demanda: quem já ia comprar. Você corta a verba, colhe só essa fatia, e o indicador sobe lindamente. Só que você vendeu menos — e, vendendo menos, o custo fixo pesa mais em cada pedido.

Por isso a pergunta certa nunca é "qual foi o ROAS". É "quanto sobrou". Uma operação pode aumentar a verba, ver o ROAS cair de 10 para 8,5 e terminar o mês com quase o dobro de lucro. A conta completa, linha a linha, está na projeção de lucro no e-commerce.

Há um efeito colateral pouco discutido: investir pouco também deixa a operação instável. Vende num dia, fica três sem vender. Mídia com volume baixo entrega de forma irregular, o atendimento perde ritmo, e a equipe que faz a mesma tarefa com pouca frequência erra mais. Escala não melhora só a diluição — melhora a consistência.

Markup não é margem

O varejo aprendeu a precificar por markup: compra por 1, aplica 2,5 ou 3, vende. A conta mental que costuma acompanhar é "pago uns 15% de imposto, mais o custo da venda, sobra 30%".

Essa conta ignora o que decide o resultado:

  • O rateio do custo fixo, que depende do volume que você ainda não sabe se vai vender.
  • O custo real do frete, incluindo o que você subsidia no frete grátis.
  • A taxa do meio de pagamento e o custo do parcelamento sem juros.
  • Devolução, troca e a comissão de cada canal.

Markup é ponto de partida de precificação. Margem é resultado, e só aparece depois de fechar o mês. Confundir os dois é o motivo mais comum de uma loja achar que tem 30% e descobrir que tem 12%.

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Onde o grande varejo realmente lucra

Vale olhar para cima para entender a lógica. No varejo de grande porte, a venda do produto costuma render margem baixíssima. O lucro está em outro lugar: serviços financeiros — crédito, parcelamento próprio, seguro, garantia estendida, consórcio — e logística.

Isso explica por que esses grupos conseguem operar com preço agressivo na mercadoria: eles não dependem dela para lucrar. Quem compete só na margem do produto está jogando um jogo diferente com as mesmas regras aparentes.

Não significa que a sua loja precise virar banco. Significa que vale perguntar quais receitas adjacentes a sua operação já poderia ter e não tem — e que competir por preço com quem lucra em outro lugar é uma escolha cara.

As proporções exatas de lucro por linha de negócio dessas empresas variam por ano e por divulgação; o ponto aqui é o mecanismo, não o percentual.

Crescer rápido sem caixa quebra

Um alerta que eu já vi custar caro. Uma operação saiu de R$ 10 mil para R$ 200 mil por mês em um ano. Deu certo — e quase quebrou.

O motivo: compra de fornecedor parcelada, recebimento parte à vista. Isso enche o caixa de um dinheiro que ainda não é lucro, é obrigação futura. Confundindo caixa com resultado, os sócios aumentaram o padrão de custo. Quando a venda oscilou, as contas parceladas continuaram chegando e o dinheiro tinha sido gasto.

Empresa não quebra por vender pouco. Quebra por ficar sem fluxo de caixa — inclusive vendendo muito.

As perguntas que a liderança deve fazer

  1. Qual é o nosso custo fixo mensal e qual o peso dele sobre a venda atual?
  2. Em qual patamar de faturamento a nossa estrutura passa a se pagar com folga?
  3. Qual é a margem real por linha de produto, depois de frete, taxa e devolução?
  4. Se aumentarmos a verba em 50%, o que acontece com o lucro — não com o ROAS?
  5. Quanto do dinheiro em caixa hoje já está comprometido com fornecedor?

Erros comuns

  • Definir meta de ROAS sem definir meta de lucro. O time entrega o indicador e a empresa perde dinheiro.
  • Cortar verba para "melhorar a eficiência". Melhora o ROAS, piora o resultado.
  • Precificar por markup e parar por aí. O multiplicador não conhece o seu custo fixo.
  • Tratar caixa como lucro. Dinheiro de compra parcelada é obrigação, não resultado.
  • Buscar lucro antes de escala. Abaixo do patamar em que o fixo se dilui, o lucro é uma miragem cara.

Conclusão

ROAS mede a mídia. Markup precifica o produto. Nenhum dos dois diz quanto sobrou, e é comum que os dois pareçam ótimos numa operação que não está ganhando dinheiro.

A régua de liderança é outra: quanto sobra depois de tudo, e o que acontece com esse número quando eu aumento o volume. Para montar essa conta, veja a projeção de lucro no e-commerce e como aumentar a margem sem mexer no preço. Para fazer isso com os seus números, é o Diagnóstico 360.

Cristiano Creczyenski, CEO da Metris
Sobre o autor

Cristiano Creczyenski

Cristiano Creczyenski é CEO da Metris e ajuda empreendedores a crescerem com Estratégia, Marketing de Performance, CRM e I.A. São mais de 17 anos de experiência em e-commerce e marketing digital. Já atuou com marcas como Lojas Colombo, Fila, Umbro, Melissa, Coza, Continental Ferramentas, Vinhos Collection e Pizzato, entre outras.

Perguntas frequentes

O que mais perguntam sobre isso

Por que ROAS alto pode ser ruim?
Porque ROAS sobe quando você investe pouco e colha só a demanda mais barata. Volume baixo significa custo fixo pouco diluído: aluguel, equipe, plataforma e ferramentas pesam proporcionalmente mais sobre cada venda. Você exibe um ROAS excelente e leva menos dinheiro para casa.
Markup não é margem?
Não. Markup é o multiplicador que você aplica sobre o custo de compra. Margem é o que sobra depois de impostos, frete, taxas, comissões, devoluções e do rateio do custo fixo. Markup 2,5 pode virar margem de 30% ou de 5% dependendo do volume e da estrutura de custo.
Qual o patamar em que a operação começa a dar lucro?
Na maioria das operações que eu acompanho, a virada acontece ao ultrapassar a faixa de R$ 100 mil por mês. Abaixo disso o custo fixo é alto demais em relação à venda. É uma referência de campo, não uma regra — o número exato depende da sua estrutura.
Devo buscar lucro no primeiro ano da operação?
Em geral não. Faz mais sentido perseguir a escala que dilui o custo fixo e estabiliza a operação. Perseguir lucro cedo demais costuma travar o investimento no ponto em que ele ainda é caro por unidade vendida.
Onde o grande varejo realmente lucra?
Boa parte do lucro do varejo de grande porte não vem da venda do produto, e sim de serviços financeiros — crédito, parcelamento, seguro, garantia estendida — e de logística. É a razão de essas empresas conseguirem operar com margem mínima na mercadoria e ainda assim serem rentáveis.
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